Você não é meu ex-amor

Estava sentado num sofá, em que dois boys se pegavam como se fossem dois jacarés brigando num lago enlameado. Meu desejo era te ver, eu estava esperando isso. E sendo imprensado vigorosamente pelo casal, eu ficava cada vez mais paradinho. Podia ouvir claramente o som dos lábios deles juntos, em perfeita união, mesmo não havendo perfeição na vida. Isso ficou mais nítido para mim em meio àquela situação. Olhei para cima e me afastei um pouco do esfregamento, tão selvagem. Vi você e saltei, deixando o casal caído no sofá, finalmente sozinho.

Seu status chamado EX-NAMORADA, minha ex-namorada, causou grande rebuliço. Somente porque éramos o casal mais apaixonado na roda dos amigos. Ninguém conseguia visualizar nós dois separados, muito menos como inimigos. Mas aconteceu, dolorosamente. Dei três passos para me aproximar de você e recuei quando vi sua mão segurando uma outra. O bafafá estava armado, a festa tinha crescido. E eu... peguei uma cerveja na mesinha mais próxima, mesmo não gostando. E bebi, num gole só, caindo pesadamente no sofá, mais exatamente em cima dos boys. E um deles disse:

- Não queremos ménage, seu trouxa. Pelo menos não agora.

E ele riu, parando e voltando a beijar.

Apressei meus passos em direção ao banheiro, e assim que entrei, bati a porta com força. Ela tinha frestas bem no topo. Então, luzes alaranjadas adentraram o ambiente, me irritando, pois naquele momento eu só queria a solidão da escuridão. Pousei a cerveja em cima do vaso sanitário e sentei-me no chão, encostado na porta. Senti a presença no meu estômago de algo mais forte além da cerveja, sussurrando um pequeno palavrão. Tonteei, mais por ter me sentido tonto por ter tomado bebida alcoólica. Eu odiava, mas bebi. Bebi pra afogar minha tristeza. Mas ela quis sair de mim, me fazendo vomitar. E saíram de mim líquidos de dor, líquidos de comida, menos o líquido de sentimentos bons que ainda sinto por você, pois saiba de uma coisa, meu bem: você não é meu ex-amor.

Eu me ajoelhei mais uma vez e você se aproveitou, entrando no banheiro. Sua reação foi de pena, eu acho. Arrotos e arrotos com cheiro ruim invadiram suas narinas, te deixando com feições cheias de caretas. Eu ri. Gargalhei e me joguei no chão, apoiando um dos braços no vaso, sendo acompanhado por você. Te perguntei sobre o cara, te perguntei sobre nós, te perguntei se você ainda me amava e recebi um grosso não. Vendo meu quase choro, você se arrependeu e tentou me abraçar. Eu não deixei, pois me senti magoado. Com razão, certo? Seu novo namorado chegou à porta, te chamando. Antes de sair, você abriu a boca para me falar algo, mas eu acenei com a mão em desaprovação e você se calou, batendo a porta devagar, teatralmente.

Criei poderes para finalmente levantar. Lavei minha boca na pia, ficando com o hálito mais agradável. O casal ainda estava no sofá, entre suspiros e beijos. Você e seu parceiro dançavam, como se não existisse qualquer coisa que pudesse impedir. E não existia mesmo, eu não era uma ameaça e nem pretendia ser. Fiquei em pé, com minha sombra sendo refletida na parede pelo abajur. Um boy me perguntou:

- Quer vir participar?

Aceitei e sentei com eles, já me entregando. Beijei-os e senti uma sensação diferente subir em mim. Você me olhou, aparentemente chocada. Sua habilidade em leitura labial era grande, lembrei.

Então, movi os lábios para te falar: você não é meu ex-amor, mas um dia será.

Você vai gostar de ler também

0 comentários

Instagram @oquesintoempalavras

TEXTOS SOBRE PERSONAGENS DE SÉRIES, FILMES, LIVROS E MAIS!

Combates: Livros e HQ's que basearam Filmes e Séries!

D I S C L A I M E R

Todo o conteúdo publicado neste site é de autoria dos escritores/colunistas. O compartilhamento sem os devidos créditos é proibido. A maioria das imagens usadas são de reprodução da internet - caso sua imagem esteja aqui sem os créditos, entre em contato.

FRASE DO DIA