Carta para o meu agressor

O pessoal não está brincando nem sendo irônico quando fala que o mundo é pequeno. Eu ganhei o desprazer de olhar você e estar contigo no mesmo lugar, após meses e meses sem esbarrar em qualquer resquício seu. É meio estranho escrever uma carta pra um garoto que agiu de forma grotesca comigo, como um espécime de brutamontes.

Preciso agradecer aos céus por você não ter me visto, e nem sentido a minha presença. Mas se notou, com certeza sorriu debochado, assim como você se acostumou a fazer.

Eu não era apaixonado, longe disso. Porém, confesso que sentia desejo em você, pois a sua beleza física atraía os meus olhos, e você sabia disso, já que era impossível não perceber que eu olhava com firmeza pra você. Oitava maravilha era o apelido que eu chamava mentalmente pra me referir a você. Mas como qualquer monumento construído com materiais - e sentimentos - pesados, ruins, uma hora a construção desaba, causando consequências dolorosas.

Você não sentiu dó em me provocar, em me constranger, em pôr em prática o tão escuro e cruel bullying. Doeu. Doeu dentro de mim, como se você estivesse apertando o seu polegar em uma ferida aberta, para que o sangue se espalhasse e mostrasse que eu era indigno de viver sendo quem eu era. Sexualidade dos outros não deveria incomodar ninguém, porém, ela incomoda, mesmo estando quietinha, e às vezes trancada em armários. Te incomodou por quê?

O preconceito transforma a pessoa mais bonita à mais feia, descendo ela para bem mais baixo no pódio da beleza. Isso é ridículo, ainda mais pra alguém tão admirado e almejado, tão parecido com um príncipe, com um sorriso tão encantador. O problema dos sorrisos é que eles também iludem. Mas eu saí do transe persuasivo e fui atingido pelas suas palavras, que me fizeram sentir medo de ouvir ainda mais a sua voz. Por isso que eu apressei meus passos quando te vi de novo. Porque não queria testar a sua capacidade em ser maldoso. Porque não queria sentir novamente o desejo de sumir, de arrancar a cabeça de um avestruz de um buraco qualquer, para poder enfiar a minha, até porque o bicho não merece isso, nem eu e nem ninguém.

Um dia eu espero conseguir encarar você de frente, sem apreensão, com o coração livre pra te desculpar, mesmo que você não tenha me pedido e provavelmente nem peça desculpas. Essa carta poderia ser endereçada à sua casa, onde quer que você more agora. Mas não. Porque se eu fosse enviá-la, teria que usar minha saliva pra fechar o envelope, e, com certeza, com a dor que eu sinto, eu iria preferir usar o cuspe pra sujar a sua cara, não que eu fosse me orgulhar disso. Eu não iria. Mas talvez o meu lado rancoroso partisse de vez.

Atenciosamente,
alguém que você machucou.
02 de dezembro de 2017

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